Os Correios fecharam o ano de 2025 com prejuízo líquido de R$ 8,5 bilhões, o pior resultado da estatal desde pelo menos o Plano Real, em 1994. O rombo mais que triplicou em relação a 2024, quando a empresa já havia registrado saldo negativo de R$ 2,6 bilhões. A receita bruta também caiu: ficou em R$ 17,3 bilhões, queda de 11,35% na comparação anual. O resultado foi apresentado pela própria companhia.
O presidente dos Correios, Emmanoel Rondon, reconheceu que o desafio é grande e afirmou que os números “demoram para melhorar”. Segundo ele, a estatal também enfrenta uma concorrência cada vez mais forte no setor de e-commerce.
A pergunta que ficar agora é: o fim da “taxa das blusinhas”, que voltou a zerar o imposto federal para compras internacionais de até US$ 50, pode ajudar os Correios a reduzir esse prejuízo? A resposta que ainda é uma incógnita. Ela até pode ajudar na receita de encomendas, mas não resolve sozinho o problema financeiro da estatal.
O que explica o prejuízo recorde dos Correios?
O prejuízo de R$ 8,5 bilhões não veio de um único fator. De acordo com os Correios, o resultado foi afetado por causa de obrigações judiciais, aumento de custos operacionais e decisões tomadas para reorganizar passivos acumulados. A estatal informou que reconheceu R$ 2,63 bilhões em precatórios e contingências judiciais de gestões anteriores.
Outro dado importante é o patrimônio líquido negativo. Segundo o Poder360, os Correios encerraram 2025 com patrimônio líquido negativo de R$ 13,1 bilhões, sinal de uma crise financeira mais profunda do que apenas um ano ruim de operação.
A empresa também enfrenta problemas de caixa, atraso no pagamento a fornecedores e pressão de grandes clientes. O próprio presidente dos Correios disse que a receita total da companhia está praticamente estável em termos nominais há muitos anos, enquanto os custos seguem pressionando a operação.
Durante muitos anos, os Correios se beneficiaram do crescimento das compras online. A expansão do comércio eletrônico aumentou o volume de pacotes, principalmente em compras internacionais de baixo valor. O problema é que esse mercado ficou mais competitivo.
Hoje, marketplaces, transportadoras privadas e grandes varejistas usam redes próprias ou operadores logísticos alternativos. Isso reduziu a dependência dos Correios em parte das entregas, especialmente em regiões mais rentáveis e em contratos com grandes clientes.
A estatal admite que enfrenta concorrência acirrada no e-commerce, o que também fez que perdesse força ao longo dos anos.
O que foi a “taxa das blusinhas”?
A “taxa das blusinhas” foi o apelido dado ao imposto de importação de 20% cobrado sobre compras internacionais de até US$ 50. A cobrança passou a valer em 2024 e atingiu principalmente compras feitas em plataformas como AliExpress, Shopee, Shein e Temu.
Como explicamos aqui no Oficina da Net, o governo voltou atrás e zerou novamente o imposto federal para compras internacionais de até US$ 50 dentro do Remessa Conforme. A decisão foi assinada em 12 de maio de 2026 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e reverte uma medida considerada impopular entre consumidores.
É importante destacar que o fim da taxa se refere ao imposto federal de importação. Outros custos, como frete, eventual ICMS e taxas operacionais, ainda podem aparecer no fechamento da compra.
O fim da taxa pode ajudar os Correios?
Pode, mas com limites. Se as compras internacionais de até US$ 50 ficam mais baratas, a tendência é que parte dos consumidores volte a comprar mais em plataformas estrangeiras. Com mais encomendas entrando no país, os Correios podem recuperar volume em operações ligadas à importação, triagem e entrega.
Esse aumento de fluxo pode ajudar a melhorar a receita da estatal em um segmento no qual ela tem experiência e estrutura nacional. Para os Correios, mais pacotes significam mais possibilidade de faturamento, especialmente se a empresa conseguir manter contratos relevantes com plataformas internacionais.
Mas uma coisa que é preciso deixar claro é qyue volume não é a mesma coisa que lucro. Se a operação cresce sem margem suficiente, com custos altos e concorrência forte, o ganho ainda pode ser limitado. Ou seja, entregar mais pacotes ajuda, mas não necessariamente cobre bilhões em prejuízo, passivos judiciais e despesas estruturais.
A própria empresa informou que parte do resultado negativo foi influenciada por decisões de saneamento financeiro e reconhecimento de dívidas acumuladas. Isso significa que a recuperação depende de uma reorganização mais ampla, não apenas de uma melhora no comércio eletrônico internacional.
Plano de reestruturação tenta conter o rombo
Os Correios anunciaram um plano de recuperação fiscal no fim de 2025. A estatal previa ganhos de R$ 7,4 bilhões por ano, sendo R$ 4,2 bilhões com cortes de pessoal e fechamento de unidades, além de R$ 3,2 bilhões com aumento de receita. O plano também incluía um Programa de Desligamento Voluntário, que teve 3.748 adesões.
Segundo a empresa, os custos variáveis com empregados caíram 32% em 2025 ante 2024, e o volume de encomendas em atraso recuou 43%. Esses indicadores apontam alguma melhora operacional, mas ainda não são suficientes para mudar o quadro financeiro no curto prazo.
Em outras palavras, os Correios começaram a cortar custos e tentar melhorar eficiência, mas ainda carregam uma estrutura pesada e um passivo elevado.