Os executivos-chefes (CEOs) das maiores empresas dos Estados Unidos receberam aumentos expressivos em seus pacotes salariais no último ano. Segundo levantamento da Associated Press (AP) com base em dados da Equilar, a remuneração mediana dos CEOs de companhias do índice S&P 500 chegou a US$ 17,1 milhões em 2024, um crescimento de 9,7% em relação ao ano anterior.
Enquanto isso, a remuneração mediana dos trabalhadores nessas mesmas empresas foi de US$ 85.419 no período — o que representa uma relação salarial de 196 para 1 entre executivos e funcionários de base.
Levantamento mostra que ganhos dos executivos-chefes cresceram em ritmo muito mais acelerado que o dos funcionários comuns.
Alta nos lucros e valorização do mercado
Esse salto na remuneração está diretamente ligado ao desempenho das empresas. O S&P 500, principal índice de referência do mercado de ações dos EUA, subiu mais de 23% em 2024, enquanto os lucros das companhias cresceram mais de 9%.
“Esperava-se que 2024 fosse um ano forte, então os aumentos de (quase) 10% são proporcionais ao momento das decisões salariais”, explicou Dan Laddin, sócio da Compensation Advisory Partners.
A estrutura salarial dos CEOs é majoritariamente composta por incentivos de longo prazo, como prêmios em ações e opções, que crescem ano após ano em ritmo maior do que salários fixos ou bônus. Em 2024, o valor médio dos prêmios em ações aumentou quase 15%, enquanto os salários-base cresceram 4%, segundo a Equilar.
Quem mais ganhou
No topo da lista está Rick Smith, CEO da Axon Enterprises, com um pacote avaliado em US$ 164,5 milhões. A empresa, que fabrica as armas de choque Taser e câmeras corporais, registrou um lucro líquido recorde de US$ 377 milhões e viu suas ações mais que dobrarem de valor no último ano.
Outros nomes de destaque:
- Lawrence Culp (GE Aerospace) — US$ 87,4 milhões
- Tim Cook (Apple) — US$ 74,6 milhões
- David Gitlin (Carrier Global) — US$ 65,6 milhões
- Ted Sarandos (Netflix) — US$ 61,9 milhões
A maior parte dessas remunerações está atrelada a ações e desempenho financeiro das empresas.
A disparidade salarial
Desde 2018, as empresas são obrigadas a divulgar a chamada “pay ratio”, que mostra quantos anos o trabalhador mediano precisaria trabalhar para alcançar o salário de um CEO. Em metade das empresas analisadas, esse número foi de 192 anos.
Em setores com salários mais baixos, a disparidade é ainda maior:
- Carnival Corp. (cruzeiros): CEO ganha quase 1.300 vezes o salário mediano de US$ 16.900.
- McDonald’s: CEO ganha cerca de 1.000 vezes o salário mediano de um funcionário.
Segundo o Departamento do Trabalho dos EUA, os salários e benefícios no setor privado aumentaram 3,6% em 2024. O trabalhador médio norte-americano recebe US$ 65.460 anuais — ou US$ 92 mil, quando benefícios como assistência médica são incluídos.
“Com a contínua alta dos salários dos CEOs, ainda temos um enorme problema com disparidades salariais excessivas”, afirmou Sarah Anderson, do Instituto de Estudos Políticos. “Essas disparidades prejudicam a moral dos funcionários e aumentam a rotatividade.”
CEOs mulheres ganham destaque
Entre as 27 mulheres incluídas na pesquisa da AP — o maior número desde 2014 — a remuneração mediana aumentou 10,7%, chegando a US$ 20 milhões. Para os homens, a mediana ficou em US$ 16,8 milhões (+9,7%).
A CEO mais bem paga foi Judith Marks, da Otis Worldwide, com US$ 42,1 milhões, sendo US$ 35 milhões em ações. Outras mulheres no topo incluem:
- Jane Fraser (Citigroup) — US$ 31,1 milhões
- Lisa Su (AMD) — US$ 31 milhões
- Mary Barra (General Motors) — US$ 29,5 milhões
- Laura Alber (Williams-Sonoma) — US$ 27,7 milhões
- Contexto global
- Embora os dados sejam dos Estados Unidos, especialistas alertam que o fenômeno da concentração de renda no topo das organizações também vem ocorrendo em outros países, incluindo o Brasil, ainda que em proporções menores.
- O levantamento reforça a necessidade de transparência salarial, debate sobre governança corporativa e equilíbrio na distribuição de renda dentro das empresas, tema que ganha cada vez mais espaço nas discussões econômicas internacionais.
