O comércio brasileiro atravessa um paradoxo: as prateleiras estão cheias, mas as vagas de trabalho, nem tanto. De acordo com levantamento divulgado em setembro de 2025, o setor enfrenta a maior falta de trabalhadores dos últimos cinco anos, mesmo após empregar 10,5 milhões de pessoas em 2023 e abrir outras 56 mil vagas em 2024.
Segundo reportagem do Jornal Nacional, exibida no dia 27 de setembro, faltam profissionais em 57 das 100 principais funções do varejo, entre elas operadores de telemarketing, analistas de negócios e especialistas em logística.
A dificuldade não está apenas em atrair novos candidatos, mas também em reter os que já fazem parte das equipes.
Rotatividade alta e saídas voluntárias
Dados do Caged, analisados pelo portal DComercio, revelam que em 2024 ocorreram mais de 4,2 milhões de desligamentos no comércio. Destes, 40,9% foram a pedido do trabalhador, percentual que evidencia insatisfação com salários, jornadas e condições de trabalho. A taxa de rotatividade chegou a 36,2%, um dos índices mais altos entre os setores da economia.
Entre os principais motivos relatados para pedir demissão estão: salários baixos (28,9%), sensação de não valorização (26,2%), problemas éticos na empresa (27%) e, sobretudo, a busca por novas oportunidades em setores mais atraentes (34%).
Déficit de qualificação técnica
Um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostrou que 65% das empresas brasileiras têm dificuldade em encontrar mão de obra qualificada. No comércio, a pressão é ainda maior, já que o setor está em plena transformação digital. Além de lidar com as vendas presenciais, as empresas precisam de profissionais que dominem plataformas de e-commerce, logística de última milha, atendimento omnicanal e análise de dados.
Esse descompasso gera um quadro curioso: o Brasil convive com cerca de 6 milhões de desempregados, mas milhares de vagas abertas no varejo continuam sem candidatos adequados.
CEOs veem risco para os próximos 12 meses
A PwC, em sua pesquisa global com CEOs do setor de varejo e consumo, apontou que 41% dos executivos brasileiros enxergam a falta de mão de obra qualificada como a maior ameaça para o crescimento das empresas nos próximos 12 meses.
Essa percepção reforça o alerta de que o problema não se restringe a questões conjunturais, mas representa um entrave estrutural para a competitividade.
Consequências para o setor e para os consumidores
Para tentar preencher as vagas, empresas têm oferecido benefícios extras, como bônus por qualidade do serviço, vale-alimentação dobrado e contratos de trabalho mais flexíveis, como o de horistas. Ainda assim, a conta não fecha.
A escassez de profissionais já pressiona salários e encarece operações. Na prática, isso ameaça reduzir a competitividade do setor, que responde por 1 em cada 5 empregos formais do país, e pode refletir em preços mais altos para os consumidores.
