Apesar da corrida desenfreada por data centers, chips avançados e modelos de IA generativa, economistas alertam que o entusiasmo pode estar ultrapassando a capacidade tecnológica atual. Sam Altman, CEO da OpenAI, admitiu que o mercado está “inflado”, o que reacendeu temores de um estouro iminente. Ao mesmo tempo, bancos, fundos e analistas divergem: há quem veja apenas um ciclo natural de inovação, e quem enxergue uma “bolha de tudo”, envolvendo IA, cripto e até energia. Para tratar desse assunto, conversamos com Kenneth Corrêa, especialista em tecnologias emergentes e professor da FGV, e Fernando Sette Junior, economista e professor da UniBH. A seguir, entenda mais sobre o possível estouro da bolha da IA.
Um relatório do Bank of England, publicado em outubro de 2025, aponta que as ações ligadas à IA estão “excessivamente elevadas”, aumentando o risco de uma correção brusca caso o setor não cumpra as expectativas. No mesmo período, a Goldman Sachs Research destacou que os investimentos bilionários em modelos de IA e infraestrutura têm crescido muito mais rápido do que o retorno econômico gerado até agora, um padrão típico de bolhas tecnológicas. A preocupação também aparece em um estudo do FMI, de 2025, que evidencia um descolamento entre o hype da inteligência artificial e seu impacto real na produtividade global, sugerindo que parte da euforia pode não se sustentar no longo prazo.
Os rumores sobre uma possível bolha de inteligência artificial não são novidades, mas ganharam força depois que Sam Altman, CEO da OpenAI, admitiu publicamente que o mercado está “inflado”. A fala reacendeu discussões sobre a velocidade, e o exagero, com que investimentos têm sido direcionados ao setor. Nos últimos meses, análises publicadas por CNN Brasil, G1 e Fast Company destacam que parte dos aportes bilionários se apoia mais em expectativas otimistas do que em resultados concretos. Segundo Kenneth Corrêa, existe um descompasso entre a IA Generativa, que exige uma maior transformação cultural, e o mercado, que pede por ROI (Retorno sobre Investimento) imediato.
“A frustração de alguns executivos vem da tentativa de aplicar ferramentas revolucionárias em processos arcaicos; é como colocar um motor de Ferrari em uma carruagem. Diferente da IA Preditiva do passado, que ficava escondida no back-end, a IA Generativa democratizou o acesso à inteligência, colocando-a na mão de cada colaborador. O “fracasso” de expectativas, na verdade, é uma falha de gestão e letramento digital, não da tecnologia”, afirmou Kenneth.
Para ele, as empresas que estão colhendo resultados estão redesenhando seus fluxos de trabalho para que humanos e agentes de IA colaborem ativamente. Empresas de todos os portes disputam quem lança o modelo mais rápido, quem treina o sistema mais complexo e quem constrói o maior número de data centers, mesmo sem clareza se a demanda futura vai justificar tamanha expansão. Esse movimento acelerado, guiado mais pela pressa do que pela estratégia, lembra períodos clássicos que precederam estouros de bolhas tecnológicas na história recente.
A comparação entre a atual onda da inteligência artificial e a Bolha da Internet dos anos 90 é praticamente inevitável. Nos dois casos, houve um forte entusiasmo em torno de tecnologias vistas como capazes de mudar o mundo. Entre 1995 e 2000, empresas ligadas à Internet captaram milhões de dólares e atingiram valuations altíssimos mesmo sem apresentar lucro. Muitas delas desapareceram quando a bolha estourou em 2000. Hoje, o mercado de IA vive um cenário que lembra aquele período: promessas de transformação profunda, aporte massivo de capital e expectativas de crescimento quase ilimitado. Para o economista Fernando Sette Junior, a comparação com a bolha da internet ajuda a contextualizar o debate.
“Assim como nos anos 1990, a IA é uma tecnologia de propósito geral que alimenta narrativas de transformação total da economia e eleva avaliações de empresas muito além do histórico. Naquele episódio, o Nasdaq chegou a perder quase 80% do valor após o estouro, e o S&P 500 recuou quase pela metade, ilustrando como uma correção em tecnologia pode se espalhar para todo o mercado. Hoje, a concentração em poucas empresas também é elevada, e o fenômeno do “medo de ficar de fora” (FOMO) é frequentemente citado por analistas e bancos centrais como um dos motores da valorização acelerada”, disse Fernando.
Contudo, o especialista também aponta para diferenças fundamentais entre as duas situações. Na virada dos anos 2000, era comum que empresas não tivessem praticamente receita alguma, enquanto as gigantes que lideram a corrida da IA hoje são altamente rentáveis e ocupam posições dominantes nos mercados. Além disso, a infraestrutura digital e regulatória é mais avançada, e investidores e supervisores carregam a memória da bolha passada, o que tende a impor maior ceticismo às narrativas especulativas. Isso não elimina o risco de excesso, mas reduz significativamente a probabilidade de um colapso sistêmico semelhante ao do início dos anos 2000.
Não há consenso sobre a data exata, mas muitos analistas concordam que uma correção no mercado de IA pode acontecer “em breve”. O alerta vem da disparada nos valores de empresas do setor, especialmente fabricantes de chips e big techs, em um ritmo que supera os resultados financeiros entregues até agora. Um relatório do Morgan Stanley, publicado em setembro de 2025, projeta que ações ligadas à inteligência artificial poderiam perder até US$ 1,8 trilhão em valor de mercado caso a demanda real desacelere. Já a consultoria McKinsey, em um estudo divulgado também nesse ano, aponta que parte do investimento em IA cresce mais rápido do que a capacidade das empresas de gerar retorno, aumentando o risco de uma correção significativa nos preços.
Alguns economistas descrevem o momento como uma “bolha invisível”, que cresce de forma silenciosa e é alimentada não só pela IA, mas também pela ascensão de criptoativos e de tecnologias verdes. Para esses especialistas, o ciclo atual repete um padrão conhecido: primeiro vem a euforia, depois a aceleração desenfreada, seguida por uma desaceleração abrupta e, por fim, a correção. A questão, segundo eles, não é se haverá ajuste, mas quando.
Se a bolha da IA estourar, os efeitos podem ser amplos e atingir não apenas o setor de tecnologia, mas todo o mercado financeiro global. Assim como ocorreu no estouro da bolha da Internet no início dos anos 2000, uma queda abrupta poderia gerar perdas bilionárias, desencadear cortes de investimentos, afetar bancos e pressionar economias emergentes que dependem de capital externo. Os fundos altamente expostos a empresas de inteligência artificial seriam os primeiros a sentir o impacto, mas o efeito dominó poderia se espalhar rapidamente.
“O Fundo Monetário Internacional, em seu Global Financial Stability Report, e o Conselho de Estabilidade Financeira (FSB) alertam que avaliações de empresas de tecnologia vêm se distanciando de fundamentos observáveis, e que uma reversão brusca nas expectativas de lucro associadas à IA poderia desencadear um processo de reprecificação com efeitos de segunda ordem sobre crédito, confiança e investimento”, disse Fernando.
Segundo ele, os setores mais vulneráveis incluem fabricantes de semicondutores — como NVIDIA e Broadcom — e provedores de nuvem. Esses grupos investem dezenas de bilhões de dólares em infraestrutura para IA. Além desses, também seriam prejudicadas as startups que ainda não comprovaram modelos de negócio sustentáveis e dependem fortemente de capital de risco. Em entrevista à BBC News, o CEO do Google, Sundar Pichai, afirmou que “nenhuma empresa está imune” a um possível estouro, já que praticamente todas as big techs estão reorganizando seus modelos de negócio ao redor da IA generativa.
Ainda assim, especialistas destacam que um eventual estouro não significaria o fim da tecnologia, apenas o fim do excesso especulativo. A história mostra que, após um período de ajuste, as inovações mais consistentes tendem a sobreviver e amadurecer, assim como aconteceu com a própria Internet após 2000.
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