Matrix na vida real? Cientistas criam cérebro digital que move corpo virtual

Matrix na vida real? Cientistas criam cérebro digital que move corpo virtual

Ideias que antes pareciam restritas à ficção científica, como no filme The Matrix, começam a ganhar ecos na ciência real. Pesquisadores conseguiram simular digitalmente um cérebro completo de mosca capaz de controlar um corpo virtual e gerar comportamentos próprios, um avanço que aproxima a tecnologia da ideia de reproduzir mentes biológicas dentro de ambientes digitais.

Um grupo de pesquisadores ligados à empresa Eon Systems PBC anunciou um avanço importante na área de neurociência computacional: a criação do que pode ser a primeira simulação de um cérebro completo capaz de controlar um corpo virtual e produzir diferentes comportamentos.

A demonstração, divulgada em vídeo pela equipe, apresenta um modelo digital do cérebro de uma mosca-da-fruta que recebe estímulos, processa informações e envia comandos motores para um corpo simulado em ambiente físico virtual. O resultado é um sistema capaz de reproduzir ações semelhantes às de um organismo real.

O experimento representa um passo relevante em uma área conhecida como emulação completa do cérebro, que busca copiar digitalmente a estrutura e o funcionamento de um cérebro biológico.

Para assistir o vídeo, clique aqui

O que é a emulação completa do cérebro

A chamada whole-brain emulation (emulação completa do cérebro) é uma ideia estudada há décadas por cientistas e futuristas. O conceito consiste em mapear todas as conexões neurais de um cérebro biológico e recriá-las em um computador.

Na prática, isso significa copiar cada neurônio e cada sinapse — as conexões entre neurônios — para que um sistema digital reproduza o funcionamento do cérebro original.

Até hoje, muitos projetos conseguiram apenas modelar partes do cérebro ou simular redes neurais específicas, mas sem integrar completamente percepção, processamento e movimento.

O modelo do cérebro da mosca

Em 2024, pesquisadores liderados pelo cientista Philip Shiu, da Eon Systems, publicaram na revista científica Nature um modelo computacional que reproduz todo o cérebro da mosca-da-fruta (Drosophila melanogaster).

Esse modelo inclui:

  • mais de 125 mil neurônios
  • aproximadamente 50 milhões de conexões sinápticas

A estrutura foi construída a partir do FlyWire connectome, um mapa detalhado das conexões neurais da mosca obtido por microscopia eletrônica e técnicas de aprendizado de máquina.

Nos testes iniciais, o sistema conseguiu prever comportamentos motores da mosca com cerca de 95% de precisão.

Apesar do resultado, havia uma limitação importante: o cérebro digital não possuía um corpo para controlar.

O cérebro digital ganha um corpo

No novo experimento, os pesquisadores deram um passo além.

Eles integraram o cérebro simulado a um modelo físico virtual de uma mosca, desenvolvido em um ambiente de simulação chamado MuJoCo, amplamente usado em pesquisas de robótica e inteligência artificial.

Projeto MuJoco em ação

O sistema funciona em ciclo completo:

  1. Estímulos sensoriais entram no sistema
  2. O cérebro digital processa as informações
  3. Os circuitos neurais geram comandos motores
  4. O corpo virtual executa o movimento

Esse processo cria um loop sensório-motor, semelhante ao que ocorre em organismos reais.

Segundo os pesquisadores, essa é a primeira vez que um cérebro completamente emulado, baseado em dados biológicos reais, controla um corpo simulado produzindo múltiplos comportamentos naturais.

Diferença em relação a projetos anteriores

Outras pesquisas já haviam simulado animais digitais, mas usando técnicas diferentes.

Alguns exemplos incluem:

  • modelos de corpos controlados por aprendizado por reforço (IA), sem cérebro biológico real
  • projetos como o OpenWorm, que simula o sistema nervoso do verme C. elegans

No entanto, o sistema nervoso do C. elegans possui apenas 302 neurônios, muito menos do que o cérebro da mosca.

No novo projeto, o controle do corpo virtual não é feito por inteligência artificial treinada, mas sim pelas dinâmicas neurais reais do cérebro mapeado biologicamente.

Próximo objetivo: simular o cérebro de um camundongo

O experimento com a mosca também serve como base para projetos mais ambiciosos.

A missão da Eon Systems é criar emulações cerebrais cada vez maiores e mais precisas, com o próximo alvo sendo o cérebro de um camundongo.

Um cérebro de camundongo possui cerca de:

  • 70 milhões de neurônios
  • aproximadamente 560 vezes mais neurônios que o cérebro da mosca

Para isso, os pesquisadores estão reunindo grandes quantidades de dados sobre o funcionamento neural usando técnicas como:

  • microscopia de expansão, para mapear conexões neurais
  • imagens de cálcio e voltagem, que registram a atividade dos neurônios em tempo real

Possível impacto para o futuro

Se a tecnologia continuar avançando, especialistas acreditam que ela poderá ajudar a compreender melhor como os cérebros funcionam, além de contribuir para pesquisas sobre doenças neurológicas, inteligência artificial e robótica.

No longo prazo, alguns cientistas consideram que a emulação completa do cérebro poderia levar à criação de modelos digitais extremamente complexos de mentes biológicas, embora esse objetivo ainda esteja muito distante.

Por enquanto, a simulação do cérebro da mosca representa um marco científico importante, mostrando que já é possível reproduzir digitalmente um cérebro biológico completo e fazê-lo interagir com um corpo virtual.

Autor

  • Gaby Souza é criador do MdroidTech, especialista em tecnologia, aplicativos, jogos e tendências do mundo digital. Com anos de experiência testando dispositivos e softwares, compartilha análises, tutoriais e notícias para ajudar usuários a aproveitarem ao máximo seus aparelhos. Apaixonado por inovação, mantém o compromisso de entregar conteúdo original, confiável e fácil de entender