O mercado de Private Equity passa por uma reconfiguração estrutural às vésperas de 2026. No Brasil, metade dos investimentos já se concentra em operações de Growth e expansão, movimento associado à taxa Selic de 15%, ao crédito mais caro e ao retorno de valuations a patamares considerados mais realistas após os excessos observados entre 2021 e 2022.
No cenário global, a tecnologia mantém protagonismo: transações acima de US$ 500 milhões cresceram 51% entre 2023 e 2024, enquanto nos Estados Unidos o setor respondeu por 22% dos contratos firmados no primeiro semestre de 2025.
Para especialistas, a combinação de juros elevados, demanda reprimida do consumidor e necessidade de eficiência coloca 2026 como um ano que exigirá maior rigor na seleção de ativos e atuação mais ativa sobre o portfólio.
Segundo João Kepler, CEO da Equity Group, o ambiente econômico brasileiro ajuda a explicar por que o próximo ciclo não deve repetir padrões passados.
“O Brasil termina 2025 em um momento de virada. A economia desacelerou com a Selic em 15%, mas a inflação em queda abre espaço para cortes de juros em 2026. O mercado de trabalho segue forte e o consumidor tem poder de compra represado. No ambiente de investimentos, os preços das empresas voltaram a níveis realistas após os excessos de 2021-22. O mercado abandonou a era do crescer a qualquer custo e passou a valorizar crescimento sustentável com foco em resultado”, afirma.
Para ele, esse cenário favorece holdings que combinam capital e inteligência estratégica, por meio de teses de Smart Money.
A análise é compartilhada por Gabriel Lopes, sócio da Equity Group, que reforça o papel central da tecnologia nos aportes globais.
“Tecnologia segue como protagonista. As transações acima de US$ 500 milhões cresceram 51% entre 2023-24, e a participação do setor nos Estados Unidos subiu para 22% no 1º semestre de 2025. No Brasil, a tecnologia representa metade dos investimentos de Corporate Venture Capital em 2025. O motivo é claro: empresas de software e tecnologia historicamente entregam crescimento acima de 10% ao ano, algo incomum em outros segmentos”, observa.
Para a Equity, isso significa foco em negócios já validados, com receita recorrente, margens escaláveis e estrutura operacional consolidada.
O ambiente de crédito também influencia a dinâmica de investimentos. Para Nílio Portella, sócio da empresa, os juros elevados funcionam como filtro natural.
“Eles separam empresas bem geridas das que cresceram com alavancagem excessiva e criam oportunidades de reestruturação e consolidação para quem trabalha com capital paciente e suporte estratégico. Quem depende só de dinheiro barato sofre; quem entrega inteligência estratégica prospera”, afirma. Segundo ele, em 2026 apenas empresas com caixa, eficiência e governança avançarão no pipeline de investidores institucionais.
No portfólio, a rota de consolidação ganha força, aponta Túlio Menê. “Esperar apenas pelo crescimento orgânico é uma estratégia limitante. Globalmente, 40% do valor de deals em Private Equity já vem de aquisições add-on. A consolidação deixou de ser exceção e virou alavanca de valor. Estamos preparados para assessorar fusões que capturem sinergias reais, ampliem base de clientes ou gerem escala”, explica.
A projeção da Equity para 2026 segue essa tendência, com expectativa de que fusões e integrações respondam por parte significativa da geração de valor, especialmente em tecnologia e serviços financeiros.
A convergência entre fusões, tecnologia e crescimento orientado a resultados indica que 2026 será um ano marcado por disciplina e seletividade. Com valuations mais equilibrados, crédito caro e expectativa de queda dos juros ao longo do ano, o capital privado tende a assumir papel relevante na retomada do investimento produtivo.
Governança, eficiência e geração de caixa deixam de ser diferenciais para se tornarem pré-requisitos. Operações de integração e expansão devem ganhar tração, e investidores terão de reforçar a capacidade de análise de risco e atuação direta no portfólio.
Em um ambiente mais exigente, estratégia passa a pesar mais do que velocidade, e decisões bem calibradas podem definir o desempenho dos próximos anos.