O combate ao assédio nas empresas brasileiras apresentou avanços nos últimos anos, com maior formalização de políticas e treinamentos. No entanto, lacunas na preparação das lideranças e na gestão de riscos psicossociais ainda representam desafios relevantes. É o que aponta a 2ª Pesquisa Nacional sobre a Maturidade no Combate ao Assédio no Brasil – Panorama 2026, realizada pela Protiviti, consultoria global especializada em compliance, gestão de riscos e tecnologia.
O estudo foi conduzido com 109 profissionais que atuam diretamente com o tema em organizações de diferentes portes, setores e regiões do país. De acordo com os dados, 93% das empresas afirmam possuir normas formais contra assédio moral e sexual, avanço em relação a 2024, quando o índice era de 86%. Já as políticas formais de apuração de denúncias passaram de 79% para 91% no mesmo período.
Apesar disso, a pesquisa indica maturidade desigual. Apenas 51% das organizações possuem políticas de apuração com capítulos específicos para casos de assédio, o que, segundo especialistas, pode comprometer a condução adequada dessas investigações.
Liderança ainda não está preparada
Um dos principais pontos de atenção está na atuação das lideranças. Apenas 26% dos entrevistados acreditam que gestores saberiam reagir de forma adequada ao receber uma denúncia de assédio. A maioria (63%) avalia que a reação seria apenas parcial, enquanto 11% afirmam que os líderes não saberiam como agir.
Segundo Daniela Aggio, diretora executiva de Forensics & Integrity da Protiviti, o despreparo pode gerar riscos adicionais.
“Na prática, muitos relatos chegam primeiro aos líderes diretos. Quando eles não estão preparados, o risco de revitimização, omissão ou condução inadequada é alto”, afirma.
Proteção ainda é limitada
O levantamento também aponta fragilidades na proteção dos profissionais envolvidos no combate ao assédio dentro das empresas. Apenas 57,8% afirmam contar com apoio da alta direção e proteção formal. Outros 29,4% relatam algum nível de vulnerabilidade, enquanto 12,8% preferiram não responder.
Riscos psicossociais seguem pouco mapeados
Outro dado relevante diz respeito à gestão de riscos psicossociais e à saúde mental no ambiente corporativo. Mesmo com a entrada em vigor da NR-01, apenas 44% das empresas afirmam ter realizado o mapeamento desses riscos. Já 39% não fizeram esse levantamento, e 17% não souberam informar.
Além disso, 68% das organizações ainda não tratam de forma adequada temas como burnout e adoecimento mental. Apenas 32% dos respondentes consideram que essas questões são abordadas de maneira efetiva.
Baixo envolvimento da alta direção
A pesquisa também evidencia lacunas no engajamento da alta liderança. Apenas 68,8% das normas contra assédio e 64,2% das normas de apuração foram formalmente aprovadas pela alta direção com evidências documentais. Em 16,5% dos casos, nenhuma norma passou por aprovação formal.
Mesmo entre empresas com políticas existentes, apenas 56% têm aprovação formal da alta direção para normas contra assédio, e 26% para normas de apuração.
Treinamentos avançam, mas ainda são insuficientes
No campo da capacitação, houve avanço: 88% das empresas realizam algum tipo de treinamento sobre assédio, ante 79% em 2024. Destas, 44% promovem treinamentos estruturados e recorrentes para toda a organização, enquanto 13% direcionam as ações a públicos específicos.
Ainda assim, 12% das empresas não realizam qualquer tipo de treinamento, e 43% não possuem um plano estruturado e formal.
Para Daniela Aggio, os avanços são relevantes, mas insuficientes para garantir ambientes seguros.
“O combate ao assédio está diretamente ligado à sustentabilidade dos negócios, à reputação das organizações e à construção de ambientes de trabalho saudáveis. É necessário investimento contínuo, preparo da liderança e mecanismos efetivos de proteção”, conclui.
