Durante boa parte da última década, o mercado mobile viveu a expectativa de se tornar um novo lar dos grandes jogos de tiro. A promessa era clara, fazer com que você não precisasse de um console para curtir os melhores jogos de tiro da atualidade. Mas no meio do caminho, algo deu muito errado.
Fracassos recentes, como as versões mobile de Apex Legends e Warzone, colocaram em cheque o futuro dos jogos de tiro no celular. Para você ter uma ideia de como o caso é sério, até mesmo Valorent, cuja versão mobile está pronta há anos, espera um sinal verde da Riot para ser lançado no ocidente. Isso mesmo, a Riot, que atualmente passa por dificuldades com 2X KO.
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O que deu errado?
Desde a explosão do sucesso de Free Fire até a consolidação do gênero como Call of Duty Mobile, os celulares viveram a verdadeira era de ouro do jogo de tiro. Foi algo que aconteceu entre 2017 até 2020.
Uma quantidade insana de jogos foram lançados, muitos deles por empresas como Net Easy e outras empresas. Literalmente toda semana tinha um jogo novo e um público cedendo por novidades. Boa parte desses jogos nem existe mais.
Free Fire se sustentou pela acessibilidade e compatibilidade com aparelhos mais modestos. Já Call of Duty Mobile chegou na hora certa em 2019, fechando um ciclo de quando era muito fácil ter um game de sucesso no mobile.
O lançamento de games cross plataforma como G Impact e Fortnite colocou nos jogadores a ideia de que os próximos lançamentos de jogos de tiro deveriam ser maiores e melhores.
O público não queria mais uma versão mobile. Eles queriam os mesmos jogos de PC no celular e literalmente o mesmo jogo, que o progresso, tudo fosse compartilhado, mesmas salas, enfrentar jogadores de PC, aquela coisa toda.
Guarde essa informação de que os jogadores queriam jogos de console e PC no celular. Vamos usar isso mais tarde, mas fazer o mesmo que aconteceu com esses dois jogos em outros games se provaria um verdadeiro desafio técnico, que testaria não apenas os limites dos smartphones, mas também o bolso das empresas em gastar com desenvolvimento.
Desafios técnicos e fracassos
Jogos como Apex Legends e Warzone se mostraram muito difíceis de se adaptar no mobile. Grande parte disso se deve à variedade de dispositivos e um público que queria uma taxa de frames muito alta e gráficos no estilo PlayStation 5 e Xbox Series X.
Com isso, o que mais aconteceu foi jogo flopando, jogo travando, pessoas com dificuldade de jogar e o público cansado de esperar começou a partir para outras plataformas.
Resumindo, demorou tanto que as pessoas conseguiram adquirir seu PC, seu console e aí foram desistindo do mobile.
A verdade, embora incômoda para as grandes publishes, é essa, o público de jogos no mobile diminuiu com o tempo e com ele o hype por esse tipo de game. As pessoas foram se cansando. Passou tanto tempo que quando finalmente o jogo chegou, as pessoas já tinham seu PlayStation 5, seu Xbox Series X, seu PC e não queriam mais saber de jogar no celular.
Por exemplo, já faz 3 anos que Apex Legends Mobile foi removido das lojas de aplicativo. Já fazem 3 anos. E mesmo assim, o pessoal espera volta de um jogo que já foi encerrado, o ciclo dele já acabou.
Eu tenho muitas dúvidas que as empresas têm a condição de reviver o hype daquela época para trazer para os dias atuais. O IP desses jogos acabou já, não tem mais uma demanda.
Quer dizer, a demanda parece que tem, parece que existe, mas na realidade esse público já tem PC e consoles. O que vai acontecer? Eles vão testar o jogo por uma semana e depois eles voltam para jogar na plataforma que eles já tem, já possui, já estão curtindo.
O alto custo de manter shooters no mobile
Esses cancelamentos deixam claro um ponto crucial. Manter um jogo de tiro competitivo no mobile é caro, tecnicamente complexo e depende de uma base de jogadores muito engajada e muito grande. Sem retenção e sem retorno financeiro, nem mesmo franquias consagradas conseguem mais se sustentar no mobile.
E não adianta nem se inspirar e lançar um jogo parecido, como foi o caso que aconteceu com o Farlight 84.
O caso do Farlight 84 é emblemático. O jogo chamou muita atenção durante o seu lançamento com o seu visual estilizado, jetpacks, heróis carismáticos e proposta futurista. Durante um curto período, tudo indicava de que ele poderia se firmar como um novo fenômeno.
No entanto, problemas de balanceamento, presença de hackers e falta de atualizações realmente impactantes fizeram a base de jogadores encolher. Hoje o game ainda existe, mas está muito distante do destaque que ele já teve.
No Brasil, o jogo chamou atenção por conta dos campeonatos com premiação em dinheiro e muita gente caiu de cabeça no jogo. Mas bastou os campeonatos acabarem que o público dropou do jogo com tudo.
A Lility Games fez tantas reformulações que o jogo mudou completamente, ficando parecido com Apex Legends, mas nem isso chamou a atenção do público.
O fracasso de Warzone Mobile
Outro caso emblemático é o de Warzone Mobile. Quando o Warzone Mobile foi anunciado, a ambição era enorme. A Activision prometia gráficos próximos ao dos consoles, integração com o ecossistema do Warzone tradicional e uma experiência completa de um battle royale no celular.
Na prática, o lançamento se revelou um jogo pesado, mal otimizado e repleto de problemas técnicos. O alto consumo da bateria e o superaquecimento nos smartphones chegaram a um nível que teve gente que quase destruiu seus aparelhos.
O título que deveria consolidar o domínio dos shooters no mobile se revelou um grande fracasso, se tornando um exemplo claro dos limites da plataforma, não em potência ou em performance, mas em escopo do lançamento.
A Activision confirmou que os servidores de Warzone Mobile serão finalmente desligados no dia 17 de abril. O jogo que já havia morrido teve sua morte oficialmente confirmada.
Segundo fontes que eu não posso revelar, a Activision entrou em contato com criadores de conteúdo de Warzone Mobile pedindo para que eles parassem de falar do jogo e deixassem o jogo morrer, para não dar falsas esperanças de que ele voltaria algum dia.
O cenário atual
O ciclo constante de lançamentos, abandono e cancelamentos deixou o público desconfiado. Os jogadores criaram hábito de apenas testar o game sem gastar nada nele. E isso foi fatal para jogos que dependiam de uma receita constante para continuar.
Não dá para culpar o público. Quem é que vai investir seu suado dinheirinho em um game que pode ser encerrado sem aviso prévio?
Dizer que existe um grande hype para jogos de tiro mobile atualmente é uma grande mentira. O hype atual, se é que ele existe, não dá nem para comparar com o que aconteceu entre 2017 e 2020.
Hoje em dia, apenas Free Fires ainda se sustenta com números relevantes. O cenário atual mostra uma mudança clara de comportamento. O público mobile, principalmente os fãs de FPS, estão preferindo esperar e investir em um PC modesto ou um console para jogar seus games nas plataformas onde eles foram imaginados.
Entre 2017 e 2020, o hype era gigantesco e toda semana tinha uma novidade explosiva. Com a saturação de jogos de tiro no mobile, o público se fragmentou.
Hoje em dia é quase impossível ter aquele hype todo do passado. O mais comum é um amigo ter um jogo, mas o outro não poder jogar por ter celular incompatível, por lag ou simplesmente porque já tem um PC gamer rodando Warzone e Fortnite a 240 FPS.
E lembra daquela informação que eu falei que as pessoas estavam gostando mais de jogar jogos de PC no celular? Pois é, com o avanço da emulação, hoje em dia isso é real e a galera está preferindo jogar muito mais jogos offline de PC no Android, esquecendo completamente os jogos de tiro.
